A REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES NA ARTE E NA CULTURA VISUAL – parte 2

POR PAULA MASTROBERTI

No artigo anterior, deixei com vocês duas imagens matriciais de representação visual de corpo-mulher: a Vênus de Willendorf e a Sheela-na-Gig (para revê-las, é só voltar à primeira postagem). Pois bem, mantenham essas duas figuras na memória: vamos precisar delas para referenciar nossas ideias à medida que percorremos a história das artes visuais. A Vênus de Willendorf é mais conhecida (quem não lembra dela ilustrando o capítulo sobre a pré-história de um livro escolar?). Todos sabem o que ela significa: a mulher-mãe, símbolo da fertilidade, da vida, do alimento. Provavelmente a representação de uma deusa primária, podendo ser associada à terra como fonte nutricional (ela é datada como pertencente ao período paleolítico, quando os povos ainda não plantavam, mas colhiam e dependiam do que a natureza espontaneamente produzia). O nome “venus”não poderia ser mais descabido (atualmente, ela é mais conhecida como “Mulher de Willendorf”), pois essa figura feminina pouco fala de sexo, mas mais de um poder generativo, mitificado pelos humanos pré-históricos. Ela é erótica no sentido de portadora de energia vital, numa irupção tão intensa que deforma este corpo (o ventre grávido, os seios intumescidos de leite), diferente do corpo-homem – que não se compreendia como parte da reprodução, mas como caçador ou coletador, cabendo-lhe portanto venerar o misterioso fenômeno da concepção que se apossava da companheira.

Ao lado dela, embora pertença a uma época bem posterior (séculos XI e XII), temos a Sheela-na-Gig: escancarando a vulva com as próprias mãos, esta figura celta impõe aos homens o interior profundo, misterioso, escuro e ameaçador do ventre feminino. A Sheela, ao contrário da Vênus, não se consagra à vida, à fartura: ela deve inspirar antes medo, ao lembrar que todo aquele que nasce de um ventre está fadado a um tempo finito, com começo (nascimento) e fim (morte). Não é à tôa que sua figura, estranhamente admitida como decoração de igrejas e castelos da Espanha, Irlanda e Grã Bretanha, tem por objetivo não sacralizar o sexo, mas advertir os seres humanos de sua expulsão do paraíso (onde seriam imortais) em virtude do pecado original. Dispostas nas portas e janelas anglo-saxãs, sua função mais prosaica seria a de proteger as aberturas, espantando maus espíritos e espiões indesejáveis.

Quem confeccionava tais figuras? Homens ou mulheres? Isso não importa muito nesse momento em que a função desses objetos era a de expressar um pensamento coletivo, menos preocupado em definir esta ou aquela mulher, mas em definir signos representativos da feminilidade em geral, a partir de seus corpos e dos fenômenos biológicos que os atravessam. Deixando bem claro que a linha que pretendo seguir se limitará à cultura ocidental, observo que essa divisão representativa do corpo-mulher (vida/morte, geradora/predadora, mãe/sedutora) se estenderá por toda a história da arte e da cultura, como veremos no próximo post. Enquanto isso, fiquem com a imagem abaixo, e procurem estabelecer relações entre ela e as outras duas já discutidas aqui.

Image

Iluminura retirada de um missal alemão do século XV, representando Maria e Eva.

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