A Representação das Mulheres na Cultura Visual – parte 10

Terminei o último artigo prometendo falar em Lois Lane. Mas antes, é preciso dizer que, na história da grande arte, principalmente a partir do século XVIII, a representação do corpo feminino se complexifica, assumindo outras conotações para além do dualismo sexo/maternidade, sacro/profano ou vício/virtude. Algumas tipologias de representação do corpo feminino nas artes (sobretudo nas artes decorativas ligadas aos monumentos e mais tardiamente, à publicidade) foram levantadas por Marina Warner, com relação ao sua aplicação alegórica, entre elas: a Virtude, a Vitória, a Justiça, a Sabedoria, a Riqueza, a Liberdade, etc. É importante mencionar isso, porque muitas dessas figuras decorativas serviriam de modelo para compor a personagem heroica feminina nas ilustrações e quadrinhos.

Pois bem: Lois Lane, quando no momento de sua criação, escapava a esses arquétipos, pois era uma garota comum e ainda por cima tinha uma profissão: era jornalista. Sua personalidade era, no todo, sarcástica mas, ao mesmo tempo, afetiva e independente. Tal como Dale Arden, Lois nasceu para confirmar a virilidade de um herói, mas também para conquistar o público feminino para a leitura de quadrinhos.

LouisLane01

Os anos fizeram mal a Lois Lane, infelizmente. Primeiro foi a censura moral que se abateu sobre os quadrinhos, impedindo, entre outras, a realização sexual dos seus personagens; em seguida, a guerra, embora tenha contribuído por um período para fortalecer e dignificar a imagem da mulher nas artes gráficas, acabou gerando um movimento reacionário nos anos 50, do tipo “vamos colocar a mulher de volta ao seu devido lugar”. E a jornalista atraente e ousada, escolhida para namorada de um herói másculo e poderoso como Super-homem, acabou por sofrer as consequências e virou vítima desse papel. Fosse uma super-heroína, seu destino não seria tão cruel. Mas sendo uma garota “igual às outras”, foi reduzida à apêndice amoroso e à função superficial de captar novas leitoras (os “brotos” da sociedade classe-media nascidos do efeito baby-boom) para novas edições em quadrinhos que levavam seu nome, mas que não passavam de romances água-com-açúcar, desvalorizando seu caráter audacioso dos primeiros tempos.

LouisLane02

Nada que é tão ruim que não possa piorar: na década de 1960, com pouca vendagem, a revistinha Lois Lane apelava cada vez mais para a exploração do seu corpo sexualizado (observem e comparem com as edições mais antigas). Uma capa com nuances sadomasoquistas dispensa comentários:

LouisLane03

Por fim, eis o que resta dessa mulher, que tinha tudo pra se tornar interessante, já que representava como poucas uma mulher com poderes reais, embasados no humor ácido, audácia, inteligência e competência, valores que certamente foram a causa do amor de Super-homem/Clark Kent. Atualmente, em tempos de releituras do mundo superheroico, Lois Lane, ainda que tenha recuperado certa energia como jornalista corajosa em algumas publicações, aguarda o resgate dos desenhistas e roteiristas, agachada diante da masculinidade evidente que vigora nos quadrinhos comerciais.

LouisLane05

A REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES NA CULTURA VISUAL – PARTE 8

POR PAULA MASTROBERTI. E nas artes gráficas? Com esta pergunta eu havia concluído a parte anterior. Enquanto nas “belas-artes” os dilemas centravam-se numa tentativa de diferenciação dos meios de reprodução, tais como a fotografia e a gravura (especialmente a gravura dedicada a ilustrar periódicos, como jornais e revistas), defendendo uma noção de belo desprovida de ideologias e apoiando-se na originalidade como um valor estético, nas artes gráficas a conversa era mais relaxada, aberta às inovações tecnológicas, e amigável aos novos suportes de veiculação, parte do que os teóricos modernos chamariam por muito tempo de “cultura de massa”. Nesse campo ainda tão pouco normativo e vigiado pelas elites e desprezado pela intelectualidade, a mulher pode desfrutar de um pouco de autonomia e liberdade. Do final do século XIX às primeiras décadas do século XX, em países cuja imprensa era mais desenvolvida e melhor estruturada, veremos surgir autoras desde Kate Carew até  Rose O’Neill ou Nell Brinkley.

CarewCaricaturesPics-011-copy

Kate Carew

brinkly

Nell Brinkley

o_neill_rose_kewpies_sunday

Rose O’Neill

No Brasil, teríamos a conhecida Nair de Teffé.


rian_primeiraNair de Teffé

Observo que a maioria das autoras nasceram em continente americano, mais liberal, de predominante informalidade, onde as fronteiras sociais não eram tão rígidas, em que pese a enorme disparidade econômica entre ricos e pobres. Observando o traço dessas mulheres, percebemos a intenção mais jornalística, de crônica social ou então uma intenção claramente voltada a divertir gente de todas as idades.

Na Europa, a artista ilustradora aparece ligada a um outro fenômeno recente da cultura da imprensa: o livro ilustrado para crianças, do qual inglesas como Kate Greenway são um exemplo típico. O caráter inocente das ilustrações, ligado à pintura de aquarela, atividade ligada às prendas domésticas, como bordar ou tocar piano, criavam um campo profissional confortável para o talento feminino (talvez até demais).

image KG

Ilustração de Kate Greenway

A representação da personagem feminina nas artes gráficas da virada do século XX aparece fortemente ligada aos primeiros movimentos de emancipação da mulher, conforme podemos ver nos jornais de época. Será no formato dos quadrinhos, charges e tiras para jornal que presenciaremos uma mulher bem diferente da configuração produzida pelas artes voltadas para a elite, produzidas em mídias consideradas mais sofisticadas como a pintura à óleo. Nos impressos diários, essa mulher, presente ora como mãe ou esposa nas anedotas de diversão familiar (assumindo uma tipologia recorrente até os dias de hoje, sempre mais esperta do que o marido), ora heroína moderna e ousada (aventureira, irônica ou cínica),  se desprende das funções dicotômicas que  a sacralizam ou demonizam, para tornar-se humana. É pena que isso não vai durar muito, como veremos.

sterrett_cliff_polly23Polly and her pals, de Cliff Sterrett

mcmns01b

Bringing up Father, de George McManus

A REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES NA CULTURA VISUAL – PARTE 7

Já estou chegando aonde pretendia: nas relações entre o que se denomina por arte propriamente dita (aquela caracterizada como não reprodutível, aurática por excelência) e artes gráficas (industriais ou anônimas). Não vou aprofundar muito essa discussão do que é e o que não é arte, até porque ela se encontra (ou deveria encontrar-se) francamente superada nos dias de hoje, pós-duchampianos. O que interessa para nós aqui são os aspectos estéticos e poéticos que envolvem os signos predominantemente visuais produzidos pela nossa cultura e suas relações com o status social do gênero feminino e da representação do corpo-mulher.

Pois bem, por incrível que possa parecer, enquanto que no campo da arte (ou pelo menos no campo reconhecido pela história institucional da arte como arte) o pensamento ainda encontrava-se fundamentado numa visão burguesa humanista idealizante e conservadora, sentimentalista em suas piores manifestações, nas artes gráficas (sobretudo nas artes aplicadas a imprensa jornalística) encontraremos uma postura progressista, irreverente e libertadora, onde a mulher (claro, ainda não qualquer mulher e não sem pagar um certo preço) pode encontrar espaço e expressar suas ideias. No final do século XIX, à grosso modo, as atividades artísticas consideradas como parte da alta cultura (entendam por alta cultura a arte defendida pela elite burguesa intelectual e acadêmica) envolviam-se com os dilemas pós-fotográficos: o simbolismo e o impressionismo anunciavam o fim da pintura como “janela”para o mundo “real” (e até o que seria esse real já entrava em discussão). O corpo feminino, majoritariamente tratado como objeto sensual, ou está ligado às propostas de representação da vida ao ar livre, em meio à luz natural, ou será expressão doentia dos delírios opiáticos ou sifilíticos masculinos:

lorigene-du-monde-gustave-colbert1

A origem do mundo, de Gustave Courbet (1866). Realista, Courbet retoma o tema Sheela na Gig. Mas ao reduzir origem e telos a uma genitália desprovida de identidade, ele desumaniza a mulher e o sexo.

Pierre-Auguste_Renoir_021 As banhistas, de Auguste Renoir (1887). Mulheres que ingenuamente se deixam observar pelo olhar voyeurista masculino. Brinquedos de homem.

alfred-kubin-todessprung-1902

Salto mortal, de Alfred Kubin, 1902.  Simbolistas como ele abordaram o corpo feminino como fonte de desejo e culpa, de doença (psíquica ou física) e de morte. A mulher fatal assombra os artistas do estilo, em aparições inclusive verbais, como  na poesia de Charles Baudelaire. Tempos de Freud: histeria feminina e complexos edipianos na crista da onda.

E nas artes gráficas? Fica pra próxima.

A REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES NA CULTURA VISUAL – PARTE 6

Estou devendo uma reflexão sobre Le déjeuner sur l’herbe (O almoço na relva), 1863, de Édouard Manet. A princípio, poderíamos ficar tão chocados quanto o público que viu pela primeira vez esta pintura: o que uma mulher completamente nua está fazendo entre esses homens? Por que ela está desvestida? Trata-se de uma prostituta? O contraste entre seu corpo (exposto e suscetível ao nosso olhar crítico, avaliador) e o corpo escurecido pelos austeros trajes dos homens que a acompanham (e mesmo o da outra mulher que pudicamente se resguarda ao fundo, curvada sobre si mesma) causa desconforto mesmo nos dias de hoje. Contudo, vejam a diferença: ao contrário de Boucher, que vimos lá atrás, e de outros tantos artistas que erotizam ou exibem decorativamente a figura feminina, de modo a transformá-la num objeto de prazer visual/sensual, Manet nos propõe exatamente o oposto. Não, a mulher que almoça junto a seus amigos não o/a está seduzindo, meu caro amigo/a. Sua pose não expõe de forma cativante seus atributos, ela está tranquilamente sentada, e tranquilamente nos olha diretamente nos olhos, como se nos dissesse: “sim, é possível que eu seja uma prostituta, mas antes de tudo sou humana e mulher”. Seu olhar é afetivo, mas eu não diria que é sexy. Antes afável, quase pensativo, como se refletisse com certa superioridade sobre nós, espectadores que nela buscamos algum apelo sexualizante. O que Manet fez ( coisa que o público de sua época não pôde perdoar) foi expor francamente e de modo crítico a face hipócrita da sociedade burguesa de seu tempo. A mulher retratada está nua em meio a homens vestidos, não para despertar desejo, mas para apontar o desejo. Desnudá-lo (verbo mais do que adequado) em público. Afável, a mulher nua é, entretanto, vigorosa testemunha da acusação feita por um artista homem empático que denuncia as distorções representativas atribuídas a este corpo em não poucos momentos da história da arte.  Pena: sua intenção não foi bem compreendida, como veremos a seguir.

A REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES NA CULTURA VISUAL – PARTE 5

Estou evitando citar artistas mulheres, não porque elas não existam, mas porque sua voz é ainda muito mal-ouvida na história da arte. Nosso imaginário ocidental está repleto de corpos femininos traduzidos pelo olhar masculino, infelizmente. Mesmo na contemporaneidade, a temática figurativa do corpo feminino ainda carrega consigo esse carma simbólico com  a sensualidade, o erotismo – o corpo feminino objetificado, após sua dessacralização. Artistas como Artemísia Gentileschi (séc XVII) ou Elisabeth Vigée-Le Brun (séc XVIII) tematizam a mulher em suas pinturas, mas falta nelas a ousadia estética que validaria seu discurso junto ao sistema crítico de arte: Artemísia se serve das mesmas fórmulas linguísticas criadas pelos seus mestres sobre o claro-escuro; Vigée-Le Brun é pintora da aristocracia e acomodada a uma visão pictórica decorativa e laudatória dos modelos clássicos e acadêmicos. Não as culpemos por isso: essas mulheres já fizeram muito em furar o bloqueio profissional e registrar seu nome numa história que só agora as inclui.

Contemporâneo de Vigée-Le Brun, temos François Boucher. Observem as ilustrações de suas pinturas no post anterior . Destituído de mistério, o corpo-mulher ora se veste, ora se despe, em variadas significações. Ao lado do retrato respeitoso (e, porque não dizer, decorativo da bonequinha-de-luxo aristocrata), a “odalisca” se oferece como objeto de prazer igualmente estético, sim, mas também, na ausência das atuais fotografias, como objeto de consumo próximo à pornografia.  Retirado do corpo-mulher toda a sua idealidade mítica e simbólica, resta, de um lado, segundo a visão de uma sociedade patriarcal, ou a mulher-decorativa, feita para exibição e manutenção de status social, ou a mulher-sexo, submissa à libido dos homens. Ambas tem em comum  a perda da aura simbólica que antes envolvia esse corpo e que denotava uma certa consideração por suas qualidades humanas. As representações de Boucher, já incluídas na era moderna, prenunciam as próximas variações e modularão a representação da mulher burguesa do seculo XIX.

No próximo post, Le Déjeuner sur l’Herbe (O almoço na relva), 1863, de Édouard Manet, e o motivo de tanta polêmica.

 

2010-05-13 09.14.39

A REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES NA ARTE E NA CULTURA VISUAL – PARTE 4

POR PAULA MASTROBERTI

A essas alturas, tem gente que deve estar se perguntando o que é que tem a ver história da arte com história em quadrinhos. Calma que eu vou chegar lá. Mas é que, pra se entender o que acontece com a representação da mulher e do sexo feminino nas artes gráficas, temos que ir lá atrás, no passado, quando a ilustração e o desenho ainda não eram valorizados como a pintura, por exemplo, mas surgem atreladas ao desenvolvimento da imprensa e ao trabalho anônimo e operário. Contudo, é claro que há um diálogo entre as artes plásticas e gráficas, até porque muitos artistas renomados cultivavam as chamadas “artes menores” ao lado da pintura, como Albrecht Dürer e Pieter Brueguel, ou tinham seus desenhos copiados para venda em maior escala, em forma de estampas decorativas ou moldes para tapeçarias, como acontecia com Peter Paul Rubens.

A última ilustração que eu postei aqui foi de uma pintura de Ticiano, conhecida como “Amor Sagrado e Amor Profano” ou “Vênus e a donzela”. Comparem-na com as demais ilustrações já postadas aqui e vocês poderão verificar que o corpo feminino (a mulher como figura de representação) vai adquirindo conotações mais mundanas. Embora as figuras de Ticiano não representem mulheres reais, elas estão longe de significar uma ideia religiosa, transcendente, mas referem-se a valores mais terrenos e humanísticos. São mulheres-ícones, sem dúvida, mas o binômio vida/morte já não vale aqui. Ambas figuram uma idealização dicotomizada da sexualidade humana (o amor entre duas almas – espiritual – e o amor entre dois corpos – carnal), de uma conduta ético-filosófica para homens e mulheres, criada pelos novos modos de convivência social (não é à tôa que foi produzida para celebrar um casamento). Em que pesem as mais variadas interpretações feitas a partir da leitura desta tela, ainda não podemos falar em mulheres de carne-e-osso aqui. A sensualidade desses corpos femininos nada tem a ver com um desejo íntimo e voyeurista, mas com a idealização do corpo humano em geral como algo belo (dentro dos mesmos cânones de beleza usados para a configuração de davis,  nossas-senhoras e cristos).

Ao lado de representações laicas de mulheres diversas (aristocratas, serviçais, religiosas, esposas e mães) a figura feminina vai sendo destituída aos poucos do seu significado primordial de portal entre a vida e a morte, uma vez que a própria arte já não é mais praticada somente com fins religiosos, mas associa-se a poderes econômicos e sociais. Por enquanto, vejam só essas duas imagens:

Boucher_SecXVIII02Boucher_secXVIII01

O artista François Boucher é atuante em pleno rococó francês. Na primeira pintura, temos o retrato da famosa aristocrata Madame Pompadour; na segunda, temos uma anônima “odalisca”.

A REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES NA ARTE E NA CULTURA VISUAL – PARTE 3

POR PAULA MASTROBERTI

No último post, eu deixei com vocês a imagem de uma iluminura medieval, representando, de um lado, a Virgem Maria, e de outro, Eva. Acho que a linha de pensamento que estou querendo seguir aqui é bem clara, não é? Ambas representam o corpo feminino tal visto pela coletividade ocidental em suas duas funções: a da maternidade ( a entidade feminina de Wilhendorf cristianizada) e a do pecado (a Sheela na Gig igualmente cristianizada. Para saber mais sobre elas, veja o post anterior.) Elas se complementam, como também já vimos. Contudo, não pensem que Eva representa algo negativo: do ponto de vista da filosofia cristã, o pecado nada mais é do que a aquisição da consciência de que temos um corpo, e de que esse corpo é falível e, aí sim, suscetível a ações que podem prejudicar a pureza da alma que o habita. Eva não representa a luxúria então, mas todos os pecados num mesmo corpo. Aí vem a pergunta: mas por que a falibilidade humana deve ser lembrada por um corpo-mulher? Por que não por um corpo-homem? A resposta está no seu complemento, ora: na possibilidade de gestar a vida e, trazendo à vida, aprisionar a alma num corpo frágil para conduzi-lo à morte. O corpo masculino não poderia sintetizar o ciclo completo da existência. Notem que aqui ainda falamos de um corpo-mulher simbólico, um ícone. Esse símbolo abraça todos os significados, inter-relacionando sexo à existência humana. A partir do que a gente denomina em geral como Renascimento, essa iconografia começará a adquirir outras conotações, mais mundanas. Fiquem com a imagem da pintura “Amor Sagrado e Amor Profano” de Ticiano, de 1514:

Image

A REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES NA ARTE E NA CULTURA VISUAL – parte 2

POR PAULA MASTROBERTI

No artigo anterior, deixei com vocês duas imagens matriciais de representação visual de corpo-mulher: a Vênus de Willendorf e a Sheela-na-Gig (para revê-las, é só voltar à primeira postagem). Pois bem, mantenham essas duas figuras na memória: vamos precisar delas para referenciar nossas ideias à medida que percorremos a história das artes visuais. A Vênus de Willendorf é mais conhecida (quem não lembra dela ilustrando o capítulo sobre a pré-história de um livro escolar?). Todos sabem o que ela significa: a mulher-mãe, símbolo da fertilidade, da vida, do alimento. Provavelmente a representação de uma deusa primária, podendo ser associada à terra como fonte nutricional (ela é datada como pertencente ao período paleolítico, quando os povos ainda não plantavam, mas colhiam e dependiam do que a natureza espontaneamente produzia). O nome “venus”não poderia ser mais descabido (atualmente, ela é mais conhecida como “Mulher de Willendorf”), pois essa figura feminina pouco fala de sexo, mas mais de um poder generativo, mitificado pelos humanos pré-históricos. Ela é erótica no sentido de portadora de energia vital, numa irupção tão intensa que deforma este corpo (o ventre grávido, os seios intumescidos de leite), diferente do corpo-homem – que não se compreendia como parte da reprodução, mas como caçador ou coletador, cabendo-lhe portanto venerar o misterioso fenômeno da concepção que se apossava da companheira.

Ao lado dela, embora pertença a uma época bem posterior (séculos XI e XII), temos a Sheela-na-Gig: escancarando a vulva com as próprias mãos, esta figura celta impõe aos homens o interior profundo, misterioso, escuro e ameaçador do ventre feminino. A Sheela, ao contrário da Vênus, não se consagra à vida, à fartura: ela deve inspirar antes medo, ao lembrar que todo aquele que nasce de um ventre está fadado a um tempo finito, com começo (nascimento) e fim (morte). Não é à tôa que sua figura, estranhamente admitida como decoração de igrejas e castelos da Espanha, Irlanda e Grã Bretanha, tem por objetivo não sacralizar o sexo, mas advertir os seres humanos de sua expulsão do paraíso (onde seriam imortais) em virtude do pecado original. Dispostas nas portas e janelas anglo-saxãs, sua função mais prosaica seria a de proteger as aberturas, espantando maus espíritos e espiões indesejáveis.

Quem confeccionava tais figuras? Homens ou mulheres? Isso não importa muito nesse momento em que a função desses objetos era a de expressar um pensamento coletivo, menos preocupado em definir esta ou aquela mulher, mas em definir signos representativos da feminilidade em geral, a partir de seus corpos e dos fenômenos biológicos que os atravessam. Deixando bem claro que a linha que pretendo seguir se limitará à cultura ocidental, observo que essa divisão representativa do corpo-mulher (vida/morte, geradora/predadora, mãe/sedutora) se estenderá por toda a história da arte e da cultura, como veremos no próximo post. Enquanto isso, fiquem com a imagem abaixo, e procurem estabelecer relações entre ela e as outras duas já discutidas aqui.

Image

Iluminura retirada de um missal alemão do século XV, representando Maria e Eva.

A representação das mulheres nas artes e na cultura visual

POR PAULA MASTROBERTI

Depois da palestra “Mulheres em quadrinhos: voz, discurso e representação” que proferi no Fórum Temático que aconteceu em 2013, em Porto Alegre, RS, surgiu a ideia de eu postar uma coisa ou outra sobre o que eu ando refletindo a respeito, desde que criamos o Grupo Mulheres em Quadrinhos no Facebook. Desde então, tenho pesquisado muito, lido bastante, além de observar e de participar das discussões que rolam ali. Nem tudo é consenso, mas o bacana de um fórum de discussão como o MQ é justamente isso: todo mundo é convidado a falar, a dar a sua opinião, e nem todos precisam concordar com todos. Os pensamentos ficam registrados e cada um vai formando sua própria reflexão, compondo suas afinidades. Bom, eu tenho feito as minhas e será com base nelas (longe de mim querer fazer da minha voz a voz de todo o Grupo!) que vou aos poucos ir postando aqui alguma coisa sobre o que eu acho que é o tema principal que movimenta o pessoal: a representação da mulher e do feminino não só nos quadrinhos, mas na cultura visual.

Então eu queria começar como comecei na minha palestra, falando sobre o que eu entendo por feminino e por mulher. Algumas pessoas vão achar engraçado, mas as duas palavras não são sinônimas, certo?

a)    Em primeiro lugar, mulher não necessariamente quer dizer feminino. Por mulher penso mais o corpo biológico, o ser humano cromossômico XX. Esse corpo pode ou não ter voz feminina, pode ou não emitir um discurso feminino. Contudo, esse corpo-mulher, seja qual for a sua opção sexual, atuará e participará da cultura como corpo de mulher (ou por ter nascido com ele ou por tê-lo modificado através das operações de transexualidade): logo, ele estará sujeito às produções culturais e a algumas convenções sociais que o conformarão como um ser de identidade prioritariamente feminina em muitos aspectos, desde os mais bobos tipo: o jeito de fazer xixi, o lidar com os períodos menstruais, escolhas de certos formatos de vestuário e uso de determinados acessórios corporais como sutiãs, absorventes, calcinhas, etc. Nesse sentido, o corpo transexual pode adquirir a aparência biológica e assumir um comportamento próprio da bios feminina, mas ele se resume à superfície do corpo, transformado por aquilo o que ele ou sua cultura entende por “feminino”. O transexual carrega consigo também uma carência de ordem histórica: ele não tem a memória do corpo de mulher e suas mutações, da infância à puberdade, nem foi acompanhado pelo olhar reflexivo daqueles que conviveram com ele desde a infância, olhar este que espelha e confirma uma identidade feminina.

b)    Em segundo, feminino não necessariamente implica estarmos falando de mulheres, ou de corpos de mulher, mas de emissão de vozes (de corpos de homens inclusos) e da produção de discursos – entendendo-se aqui por discurso não apenas o blá-blá-blá verbal, mas toda e qualquer outra forma de participar da linguagem e da cultura (das artes às significações sociais) – que podem ser reconhecidos e convencionados como parte da cultura feminina em seu sentido mais amplo: desde uma simples referência ao universo reconhecido como próprio das mulheres (vestidos, sapatos de salto, maquiagem, ambiências íntimas e afetivas) até formas e símbolos associados ao feminino (lua, flores, círculos, curvas, cores de tons avermelhados ou rosados, reentrâncias, cortes, rachaduras ou depressões na superfície, elementos receptivos, moldáveis, de textura suave ou confortável, etc). O problema não é ter ou não uma voz feminina: o problema, infelizmente, é que tudo o que associamos ao feminino é visto, em geral, com menosprezo ou como um sinal de debilidade, não exatamente pelo corpo-homem, mas pelas convenções sociais, em grande maioria programadas por uma comunidade cujo controle é exercido de modo a privilegiar e dar mais poder ao masculino. Isso não quer dizer em absoluto que esse corpo-homem não sofra, igualmente, com essas regras: na maioria das vezes, é justamente o contrário. O transexualismo seria, nesse sentido, uma tentativa extrema – um protesto – do corpo-homem de se livrar de sua posição exclusivamente masculina e admitir que também tem componentes femininos em seu ser e que não se envergonha disso. Afinal, nem todo transexual é homossexual. A mulher transexuada, em contrapartida, é mais aceita socialmente, porque ela pode se vestir ou assumir aparência de um corpo-homem e muitos (homens ou mulheres) ainda a apreciarão como visualmente atraente.

c) Em terceiro, ainda que um corpo de mulher queira renegar sua identidade cultural feminina ou neutralizá-la (pretendendo, com isso, atingir uma universalidade), seja através da negação dos signos biológicos do seu corpo, seja através da negação dos signos simbólicos que definem o feminino, será preciso levá-lo em conta em relação  a voz que escolheu, se feminina ou se masculina, como origem do pensamento artístico e cultural. Por dois motivos: primeiro, porque quem fala, fala de algum lugar, não é um ente idealizado como um anjo ou ser anamórfico, mas um sujeito com identidade em mutação contínua (ninguém foi, é e será sempre a mesma coisa todo o tempo, nem o corpo é estável, mas se modifica, interferindo e sofrendo interferências das transformações da história, da sociedade e da cultura). Segundo, toda identidade e suas produções se definem a partir de um corpo: em tempos de desconstrução de sistemas hegemônicos (aliás, fundamentados no pensamento gerado por uma sociedade patriarcal) não se fala mais de arte e cultura sem levar em consideração os seus contextos de produção e o seu envolvimento com a vida. O famoso lema arte pela arte foi uma ideia romântico-burguesa que atravessou o modernismo, mas que perdeu o sentido na contemporaneidade. Está claro que não existe neutralidade nas nossas opções estéticas, nem nas poéticas que abarcamos. A um artista que prefere neutralizar ou negar o gênero de sua voz em direção a uma suposta universalidade compreensiva, dentro da perspectiva dos mais recentes estudos da arte, devemos perguntar porque ele deseja fazê-lo, se isso é uma opção estética consciente ou se, ao tomar para si essa diretriz, ele não está na verdade cedendo a uma imposição do sistema do qual ele deseja muito participar e no qual ele deseja muito ser aceito. Isso aconteceu com muitas artistas e escritoras ao longo da história: mulheres que esconderam seu corpo sob uma identidade masculina, ou que optaram por falar de temas que não o revelassem ao público, com a finalidade de ser ouvidas ou de atuarem com maior liberdade e alcance social.

d)  Por fim: quero deixar claro que não sou contra nenhuma dessas opções (universalizar, feminilizar, masculinizar ou neutralizar), mas que é preciso discuti-las e inter-relacioná-las para concientizar, tanto os artistas/autores, como aqueles que usufruem da arte e da cultura – homens ou mulheres – de que nenhum jogo aqui é inocente ou “puramente”estético. Toda arte é comprometida com seu contexto social e ideológico e pode ser lida com variações conforme a época em que é acolhida. Toda arte provém de um corpo/mente inventor, mas este corpo/mente, queiramos ou não, tem um sexo – biológico e cultural -, sendo que não podemos separar ambas as identidades, mas mostrar como o sexo biológico (nato) e o sexo cultural (adquirido) se entrelaçam e se manifestam na arte e na cultura. Tratar de forma neutra da arte, restringindo-se a dados puramente estéticos, é uma falácia e pode ser profundamente prejudicial e injusto; a maior prova é que, só nas últimas décadas, após anos de obscuridade, nomes de mulheres artistas desde tempos remotos estão vindo à tona no cenário da história. Assim, quero que a partir de agora vocês pensem tanto na voz masculina que traduz o corpo da mulher e o sentido de feminilidade (ora para objetificar, ora para humanizar), quanto nas mulheres autoras de narrativas e poéticas gráficas e suas obras (quadrinhos, charges, tiras, ilustrações) dentro desses argumentos. Pra começar, vou propor aqui duas figurinhas como ponto de partida e como uma provocação, até o meu próximo artigo. Duas formas primitivas de representação do corpo-mulher:

Venus de Willendorf

Sheela-na-Gig

A primeira é conhecida como Venus de Willendorf, uma estatueta pré-histórica. A segunda é conhecida como Sheela-na-Gig, uma forma decorartiva que aparece muito no norte anglo-saxão europeu. Duas representações de corpo de mulher com significados bem diferentes…

Sobre elas falarei no próximo texto.