A representação das mulheres nas artes e na cultura visual

POR PAULA MASTROBERTI

Depois da palestra “Mulheres em quadrinhos: voz, discurso e representação” que proferi no Fórum Temático que aconteceu em 2013, em Porto Alegre, RS, surgiu a ideia de eu postar uma coisa ou outra sobre o que eu ando refletindo a respeito, desde que criamos o Grupo Mulheres em Quadrinhos no Facebook. Desde então, tenho pesquisado muito, lido bastante, além de observar e de participar das discussões que rolam ali. Nem tudo é consenso, mas o bacana de um fórum de discussão como o MQ é justamente isso: todo mundo é convidado a falar, a dar a sua opinião, e nem todos precisam concordar com todos. Os pensamentos ficam registrados e cada um vai formando sua própria reflexão, compondo suas afinidades. Bom, eu tenho feito as minhas e será com base nelas (longe de mim querer fazer da minha voz a voz de todo o Grupo!) que vou aos poucos ir postando aqui alguma coisa sobre o que eu acho que é o tema principal que movimenta o pessoal: a representação da mulher e do feminino não só nos quadrinhos, mas na cultura visual.

Então eu queria começar como comecei na minha palestra, falando sobre o que eu entendo por feminino e por mulher. Algumas pessoas vão achar engraçado, mas as duas palavras não são sinônimas, certo?

a)    Em primeiro lugar, mulher não necessariamente quer dizer feminino. Por mulher penso mais o corpo biológico, o ser humano cromossômico XX. Esse corpo pode ou não ter voz feminina, pode ou não emitir um discurso feminino. Contudo, esse corpo-mulher, seja qual for a sua opção sexual, atuará e participará da cultura como corpo de mulher (ou por ter nascido com ele ou por tê-lo modificado através das operações de transexualidade): logo, ele estará sujeito às produções culturais e a algumas convenções sociais que o conformarão como um ser de identidade prioritariamente feminina em muitos aspectos, desde os mais bobos tipo: o jeito de fazer xixi, o lidar com os períodos menstruais, escolhas de certos formatos de vestuário e uso de determinados acessórios corporais como sutiãs, absorventes, calcinhas, etc. Nesse sentido, o corpo transexual pode adquirir a aparência biológica e assumir um comportamento próprio da bios feminina, mas ele se resume à superfície do corpo, transformado por aquilo o que ele ou sua cultura entende por “feminino”. O transexual carrega consigo também uma carência de ordem histórica: ele não tem a memória do corpo de mulher e suas mutações, da infância à puberdade, nem foi acompanhado pelo olhar reflexivo daqueles que conviveram com ele desde a infância, olhar este que espelha e confirma uma identidade feminina.

b)    Em segundo, feminino não necessariamente implica estarmos falando de mulheres, ou de corpos de mulher, mas de emissão de vozes (de corpos de homens inclusos) e da produção de discursos – entendendo-se aqui por discurso não apenas o blá-blá-blá verbal, mas toda e qualquer outra forma de participar da linguagem e da cultura (das artes às significações sociais) – que podem ser reconhecidos e convencionados como parte da cultura feminina em seu sentido mais amplo: desde uma simples referência ao universo reconhecido como próprio das mulheres (vestidos, sapatos de salto, maquiagem, ambiências íntimas e afetivas) até formas e símbolos associados ao feminino (lua, flores, círculos, curvas, cores de tons avermelhados ou rosados, reentrâncias, cortes, rachaduras ou depressões na superfície, elementos receptivos, moldáveis, de textura suave ou confortável, etc). O problema não é ter ou não uma voz feminina: o problema, infelizmente, é que tudo o que associamos ao feminino é visto, em geral, com menosprezo ou como um sinal de debilidade, não exatamente pelo corpo-homem, mas pelas convenções sociais, em grande maioria programadas por uma comunidade cujo controle é exercido de modo a privilegiar e dar mais poder ao masculino. Isso não quer dizer em absoluto que esse corpo-homem não sofra, igualmente, com essas regras: na maioria das vezes, é justamente o contrário. O transexualismo seria, nesse sentido, uma tentativa extrema – um protesto – do corpo-homem de se livrar de sua posição exclusivamente masculina e admitir que também tem componentes femininos em seu ser e que não se envergonha disso. Afinal, nem todo transexual é homossexual. A mulher transexuada, em contrapartida, é mais aceita socialmente, porque ela pode se vestir ou assumir aparência de um corpo-homem e muitos (homens ou mulheres) ainda a apreciarão como visualmente atraente.

c) Em terceiro, ainda que um corpo de mulher queira renegar sua identidade cultural feminina ou neutralizá-la (pretendendo, com isso, atingir uma universalidade), seja através da negação dos signos biológicos do seu corpo, seja através da negação dos signos simbólicos que definem o feminino, será preciso levá-lo em conta em relação  a voz que escolheu, se feminina ou se masculina, como origem do pensamento artístico e cultural. Por dois motivos: primeiro, porque quem fala, fala de algum lugar, não é um ente idealizado como um anjo ou ser anamórfico, mas um sujeito com identidade em mutação contínua (ninguém foi, é e será sempre a mesma coisa todo o tempo, nem o corpo é estável, mas se modifica, interferindo e sofrendo interferências das transformações da história, da sociedade e da cultura). Segundo, toda identidade e suas produções se definem a partir de um corpo: em tempos de desconstrução de sistemas hegemônicos (aliás, fundamentados no pensamento gerado por uma sociedade patriarcal) não se fala mais de arte e cultura sem levar em consideração os seus contextos de produção e o seu envolvimento com a vida. O famoso lema arte pela arte foi uma ideia romântico-burguesa que atravessou o modernismo, mas que perdeu o sentido na contemporaneidade. Está claro que não existe neutralidade nas nossas opções estéticas, nem nas poéticas que abarcamos. A um artista que prefere neutralizar ou negar o gênero de sua voz em direção a uma suposta universalidade compreensiva, dentro da perspectiva dos mais recentes estudos da arte, devemos perguntar porque ele deseja fazê-lo, se isso é uma opção estética consciente ou se, ao tomar para si essa diretriz, ele não está na verdade cedendo a uma imposição do sistema do qual ele deseja muito participar e no qual ele deseja muito ser aceito. Isso aconteceu com muitas artistas e escritoras ao longo da história: mulheres que esconderam seu corpo sob uma identidade masculina, ou que optaram por falar de temas que não o revelassem ao público, com a finalidade de ser ouvidas ou de atuarem com maior liberdade e alcance social.

d)  Por fim: quero deixar claro que não sou contra nenhuma dessas opções (universalizar, feminilizar, masculinizar ou neutralizar), mas que é preciso discuti-las e inter-relacioná-las para concientizar, tanto os artistas/autores, como aqueles que usufruem da arte e da cultura – homens ou mulheres – de que nenhum jogo aqui é inocente ou “puramente”estético. Toda arte é comprometida com seu contexto social e ideológico e pode ser lida com variações conforme a época em que é acolhida. Toda arte provém de um corpo/mente inventor, mas este corpo/mente, queiramos ou não, tem um sexo – biológico e cultural -, sendo que não podemos separar ambas as identidades, mas mostrar como o sexo biológico (nato) e o sexo cultural (adquirido) se entrelaçam e se manifestam na arte e na cultura. Tratar de forma neutra da arte, restringindo-se a dados puramente estéticos, é uma falácia e pode ser profundamente prejudicial e injusto; a maior prova é que, só nas últimas décadas, após anos de obscuridade, nomes de mulheres artistas desde tempos remotos estão vindo à tona no cenário da história. Assim, quero que a partir de agora vocês pensem tanto na voz masculina que traduz o corpo da mulher e o sentido de feminilidade (ora para objetificar, ora para humanizar), quanto nas mulheres autoras de narrativas e poéticas gráficas e suas obras (quadrinhos, charges, tiras, ilustrações) dentro desses argumentos. Pra começar, vou propor aqui duas figurinhas como ponto de partida e como uma provocação, até o meu próximo artigo. Duas formas primitivas de representação do corpo-mulher:

Venus de Willendorf

Sheela-na-Gig

A primeira é conhecida como Venus de Willendorf, uma estatueta pré-histórica. A segunda é conhecida como Sheela-na-Gig, uma forma decorartiva que aparece muito no norte anglo-saxão europeu. Duas representações de corpo de mulher com significados bem diferentes…

Sobre elas falarei no próximo texto.

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