Mônica: o futuro da garota classe-média brasileira

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POR PAULA MASTROBERTI.  Não fui da geração de leitoras infantis da Turma da Mônica (tenho 50 anos, como ela); foi através da minha filha, que comecei a curti-los e percebi que Mônica – humana e feminina, com defeitos e qualidades, mas forte e desafiadora – é uma personagem bacana, modelo para todas as brasileirinhas, com quem todas podem se identificar. Então minha filha cresceu e, para sua sorte, Mônica cresceu ao seu lado. As primeiras edições da Turma da Mônica Jovem empolgavam pelos roteiros criativos, pela metalinguagem, pelas tiradas bem-humoradas, por vezes críticas, sobre o universo cultural adolescente. O estilo “mangá-brasileiro” conquistou principalmente as leitoras para as quais não há praticamente nenhuma alternativa ocidental a partir de uma certa idade, quando elas não têm outra saída se não apelar para as narrativas gráficas japonesas (toda jovem que curte quadrinhos sabe como é duro aguentar aquelas super-heroínas infladas em seios e nádegas, exibindo-os em estratégicas poses contorcionistas, vestidas com trajes inapropriados para o combate, para servir ao voyeurismo masculino). A Turma da Mônica Jovem encontrou um nicho praticamente desocupado pela indústria gráfica e tem servido de ponte entre a produção voltada para o público infantil e a graphic novel mais elaborada, para adultos. Podemos perdoar a superficialidade com que a série aborda os conflitos próprios da idade destinatária, porque trata-se de um produto feito para o entretenimento, com o objetivo de conquistar a média de leitores. Ainda assim, as revistinhas conseguiam driblar, em muitos momentos, esse papel que a indústria lhe destinou, mostrando que há cabeças pensantes no time de Maurício de Souza.

Mônica, aos 50 anos, prova, ao lado de Mafalda e outras tantas personagens fortes e bem construídas, que heroínas – infantis ou adolescentes – são e serão sempre muito bem-vindas no universo dos quadrinhos. E justamente por isso, pelo carinho e respeito que eu tenho por ela e por sua criação, é que eu preciso dizer o quanto fiquei decepcionada com a Edição Especial “O Casamento do Século”, da Turma da Mônica Jovem e o quanto me preocupa, a partir daí, o futuro da charmosa dentucinha. Tudo bem, Sr. Maurício, eu sei que ela está localizada e se dirige principalmente à classe-média brasileira e àqueles que, como o senhor certa vez salientou, ainda podem curtir uma infância nas calmas ruas de uma cidadezinha do interior. Tudo bem, eu sei que ainda existem garotas – especialmente naquelas mesmas comunidades pequenas cuja tranquilidade o senhor tanto admira – que sonham em se casar de vestido branco, véu e grinalda (ainda que o estilo do vestido da nossa querida personagem fosse de um gosto discutível). E, tudo bem, eu sei que, quando a gente casa, a intenção é ficar “juntos até que a morte nos separe”. Aceito todas essas opções do argumento, tal como projetadas através do Notebook of Love dos Cupidos de Preto. Mas ¾ só um instantinho: que papel de mulher e esposa é essa que projetaram para a nossa Mônica, Sr. Maurício? A de “megera domada”?

Não bastasse todo aquele cerimonial conservador, cujo sentido se perdeu para muitas de nós, mulheres brasileiras, que sabemos o quanto custa e o quanto aborrece ter que botar tal fantasia e assumir o papel de “princesinha” da vez para satisfazer os nossos pais e sogros. Mas o argumento todo ainda se fundamenta numa relação de casal em vias de extinção: uma Mônica-esposa assistindo TV ou preparando jantar romântico enquanto espera o maridinho voltar do trabalho? Uma Mônica-grávida pronta a assumir a função de mãe e de dona-de-casa para o resto da vida, recompensada com presentes-surpresa do marido depois de pressupor que ele está com outra mulher? Ora, veja só!

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Prezado Sr. Maurício, pelo apreço que tenho ao senhor e às suas produções, pela admiração que eu tenho pelo trabalho de sua equipe (caso raro na história dos quadrinhos desse país), gostaria que atendesse ao pedido desta mulher aqui, que o admira desde sempre, e que tem uma filha que tomou, tal como eu, gosto pela arte dos quadrinhos e abandonou, desapontada, a leitura da Turma: peço licença para exercer minha voz feminina e consciente.

Precisamos que Mônica continue a ser o paradigma de garota brasileira classe média, uma representante de um novo modo de pensar nossa condição. Precisamos que ela – como uma das mais perfeitas e populares personagens-menina criadas desde Emília e Narizinho nesse país – continue a ser o que foi quando criança: liberada, irreverente, forte e ousada. Que ela continue a ser um estímulo para que muitas leitoras mirins e juvenis se conscientizem de que a vida para a uma mulher não se resume a casar em estilo princesa, ter filhos e brincar de casinha. Que casar é bom, que o amor é bom, que homens e filhos são tudo de bom, mas que nós, mulheres, somos e queremos muito mais: queremos para as “mônicas” desse país uma carreira bem sucedida e bem remunerada, igualdade social (parece incrível, mas ainda não é assim!) e cultural (pois é, até isso, só temos em teoria, como afinal comprova o próprio percurso da história em quadrinhos, que ainda privilegia autores e leitores masculinos).

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Pois é, Mônica adolesceu lindamente e parecia saber, como poucas, entrar na meia-idade. Contudo, o futuro traçado para ela na edição comemorativa não está à altura da sua concepção original. Essa menina fez tanto esforço pra ganhar a briga, e agora puxam o tapete debaixo dos seus pés? Desculpe, mas em meu nome e em nome de todas as demais leitoras – avós, mães, filhas e netas – cuja opinião desejo representar, digo que não vamos deixar. Aguardaremos, na continuidade, um destino mais estimulante, não só para a nossa amiga baixinha e dentuça, mas também para todas as demais garotas dessa turma tão legal. E, ainda assim, um feliz aniversário para Mônica, que ela merece. Faço votos de que ela amadureça dignamente como símbolo feminino para as meninas brasileiras de todas as localidades do Brasil. (Artigo completo originalmente publicado no Jornal Zero Hora, Caderno de Cultura, sábado, 16 de março de 2013. Uma outra versão dele pode ser lida também no Coletivo WC)

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