A REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES NA ARTE E NA CULTURA VISUAL – PARTE 4

POR PAULA MASTROBERTI

A essas alturas, tem gente que deve estar se perguntando o que é que tem a ver história da arte com história em quadrinhos. Calma que eu vou chegar lá. Mas é que, pra se entender o que acontece com a representação da mulher e do sexo feminino nas artes gráficas, temos que ir lá atrás, no passado, quando a ilustração e o desenho ainda não eram valorizados como a pintura, por exemplo, mas surgem atreladas ao desenvolvimento da imprensa e ao trabalho anônimo e operário. Contudo, é claro que há um diálogo entre as artes plásticas e gráficas, até porque muitos artistas renomados cultivavam as chamadas “artes menores” ao lado da pintura, como Albrecht Dürer e Pieter Brueguel, ou tinham seus desenhos copiados para venda em maior escala, em forma de estampas decorativas ou moldes para tapeçarias, como acontecia com Peter Paul Rubens.

A última ilustração que eu postei aqui foi de uma pintura de Ticiano, conhecida como “Amor Sagrado e Amor Profano” ou “Vênus e a donzela”. Comparem-na com as demais ilustrações já postadas aqui e vocês poderão verificar que o corpo feminino (a mulher como figura de representação) vai adquirindo conotações mais mundanas. Embora as figuras de Ticiano não representem mulheres reais, elas estão longe de significar uma ideia religiosa, transcendente, mas referem-se a valores mais terrenos e humanísticos. São mulheres-ícones, sem dúvida, mas o binômio vida/morte já não vale aqui. Ambas figuram uma idealização dicotomizada da sexualidade humana (o amor entre duas almas – espiritual – e o amor entre dois corpos – carnal), de uma conduta ético-filosófica para homens e mulheres, criada pelos novos modos de convivência social (não é à tôa que foi produzida para celebrar um casamento). Em que pesem as mais variadas interpretações feitas a partir da leitura desta tela, ainda não podemos falar em mulheres de carne-e-osso aqui. A sensualidade desses corpos femininos nada tem a ver com um desejo íntimo e voyeurista, mas com a idealização do corpo humano em geral como algo belo (dentro dos mesmos cânones de beleza usados para a configuração de davis,  nossas-senhoras e cristos).

Ao lado de representações laicas de mulheres diversas (aristocratas, serviçais, religiosas, esposas e mães) a figura feminina vai sendo destituída aos poucos do seu significado primordial de portal entre a vida e a morte, uma vez que a própria arte já não é mais praticada somente com fins religiosos, mas associa-se a poderes econômicos e sociais. Por enquanto, vejam só essas duas imagens:

Boucher_SecXVIII02Boucher_secXVIII01

O artista François Boucher é atuante em pleno rococó francês. Na primeira pintura, temos o retrato da famosa aristocrata Madame Pompadour; na segunda, temos uma anônima “odalisca”.

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