A REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES NA CULTURA VISUAL – PARTE 5

Estou evitando citar artistas mulheres, não porque elas não existam, mas porque sua voz é ainda muito mal-ouvida na história da arte. Nosso imaginário ocidental está repleto de corpos femininos traduzidos pelo olhar masculino, infelizmente. Mesmo na contemporaneidade, a temática figurativa do corpo feminino ainda carrega consigo esse carma simbólico com  a sensualidade, o erotismo – o corpo feminino objetificado, após sua dessacralização. Artistas como Artemísia Gentileschi (séc XVII) ou Elisabeth Vigée-Le Brun (séc XVIII) tematizam a mulher em suas pinturas, mas falta nelas a ousadia estética que validaria seu discurso junto ao sistema crítico de arte: Artemísia se serve das mesmas fórmulas linguísticas criadas pelos seus mestres sobre o claro-escuro; Vigée-Le Brun é pintora da aristocracia e acomodada a uma visão pictórica decorativa e laudatória dos modelos clássicos e acadêmicos. Não as culpemos por isso: essas mulheres já fizeram muito em furar o bloqueio profissional e registrar seu nome numa história que só agora as inclui.

Contemporâneo de Vigée-Le Brun, temos François Boucher. Observem as ilustrações de suas pinturas no post anterior . Destituído de mistério, o corpo-mulher ora se veste, ora se despe, em variadas significações. Ao lado do retrato respeitoso (e, porque não dizer, decorativo da bonequinha-de-luxo aristocrata), a “odalisca” se oferece como objeto de prazer igualmente estético, sim, mas também, na ausência das atuais fotografias, como objeto de consumo próximo à pornografia.  Retirado do corpo-mulher toda a sua idealidade mítica e simbólica, resta, de um lado, segundo a visão de uma sociedade patriarcal, ou a mulher-decorativa, feita para exibição e manutenção de status social, ou a mulher-sexo, submissa à libido dos homens. Ambas tem em comum  a perda da aura simbólica que antes envolvia esse corpo e que denotava uma certa consideração por suas qualidades humanas. As representações de Boucher, já incluídas na era moderna, prenunciam as próximas variações e modularão a representação da mulher burguesa do seculo XIX.

No próximo post, Le Déjeuner sur l’Herbe (O almoço na relva), 1863, de Édouard Manet, e o motivo de tanta polêmica.

 

2010-05-13 09.14.39

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