A REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES NA CULTURA VISUAL – PARTE 8

POR PAULA MASTROBERTI. E nas artes gráficas? Com esta pergunta eu havia concluído a parte anterior. Enquanto nas “belas-artes” os dilemas centravam-se numa tentativa de diferenciação dos meios de reprodução, tais como a fotografia e a gravura (especialmente a gravura dedicada a ilustrar periódicos, como jornais e revistas), defendendo uma noção de belo desprovida de ideologias e apoiando-se na originalidade como um valor estético, nas artes gráficas a conversa era mais relaxada, aberta às inovações tecnológicas, e amigável aos novos suportes de veiculação, parte do que os teóricos modernos chamariam por muito tempo de “cultura de massa”. Nesse campo ainda tão pouco normativo e vigiado pelas elites e desprezado pela intelectualidade, a mulher pode desfrutar de um pouco de autonomia e liberdade. Do final do século XIX às primeiras décadas do século XX, em países cuja imprensa era mais desenvolvida e melhor estruturada, veremos surgir autoras desde Kate Carew até  Rose O’Neill ou Nell Brinkley.

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Kate Carew

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Nell Brinkley

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Rose O’Neill

No Brasil, teríamos a conhecida Nair de Teffé.


rian_primeiraNair de Teffé

Observo que a maioria das autoras nasceram em continente americano, mais liberal, de predominante informalidade, onde as fronteiras sociais não eram tão rígidas, em que pese a enorme disparidade econômica entre ricos e pobres. Observando o traço dessas mulheres, percebemos a intenção mais jornalística, de crônica social ou então uma intenção claramente voltada a divertir gente de todas as idades.

Na Europa, a artista ilustradora aparece ligada a um outro fenômeno recente da cultura da imprensa: o livro ilustrado para crianças, do qual inglesas como Kate Greenway são um exemplo típico. O caráter inocente das ilustrações, ligado à pintura de aquarela, atividade ligada às prendas domésticas, como bordar ou tocar piano, criavam um campo profissional confortável para o talento feminino (talvez até demais).

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Ilustração de Kate Greenway

A representação da personagem feminina nas artes gráficas da virada do século XX aparece fortemente ligada aos primeiros movimentos de emancipação da mulher, conforme podemos ver nos jornais de época. Será no formato dos quadrinhos, charges e tiras para jornal que presenciaremos uma mulher bem diferente da configuração produzida pelas artes voltadas para a elite, produzidas em mídias consideradas mais sofisticadas como a pintura à óleo. Nos impressos diários, essa mulher, presente ora como mãe ou esposa nas anedotas de diversão familiar (assumindo uma tipologia recorrente até os dias de hoje, sempre mais esperta do que o marido), ora heroína moderna e ousada (aventureira, irônica ou cínica),  se desprende das funções dicotômicas que  a sacralizam ou demonizam, para tornar-se humana. É pena que isso não vai durar muito, como veremos.

sterrett_cliff_polly23Polly and her pals, de Cliff Sterrett

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Bringing up Father, de George McManus

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