A REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES NA CULTURA VISUAL – PARTE 9

POR PAULA MASTROBERTI. As artes gráficas (ilustrações, quadrinhos) ofereceram, conforme vimos anteriormente, um campo aberto à participação feminina e à representação de um tipo mais audacioso de mulher, diferente da “grande arte”, cujo sistema era mais favorável ao masculino (os motivos variam desde o tipo de educação que recebiam as jovens, limitado às funções domésticas e sem acesso à academia, até a interdição da entrada em atelier e ao acompanhamento da vida boêmia dos artistas, considerado inadequado às damas). No cânone estabelecido pela história da arte do século XX, mulheres como Natalia Koncharova (uma exceção na academia russa) e Frida Kahlo (à sombra de Diego Rivera) são meras pontuações e só surgirão nas publicações mais recentes. Não que fosse muito diferente nos meios da imprensa, mas é preciso reconhecer que o movimento sufragista, as confrarias beneficentes e  periódicos femininos, em sua maioria organizadas por mulheres, estimularam e divulgaram a produção da autora gráfica. É também preciso distinguir os públicos para cada setor artístico: enquanto a elite burguesa elegia a “grande arte” de autoria acadêmica como símbolo de status, nas classes mais baixas, pequenos comerciantes e operários apreciavam a arte de jornal, as gravuras decorativas e outros artefatos mais acessíveis. A gradual emancipação da mulher, principalmente no mercado de trabalho, decorreu das necessidades e de uma consciência política que certamente não surgiu entre aquelas que exerciam a arte como mero entretenimento para afastar o tédio da vida doméstica.

Em termos de representação do corpo-mulher nos quadrinhos, temos, à partir dos anos 30, ao lado de coadjuvantes submissas, das eternas noivas ou namoradas dos primeiros super-heróis, personagens femininas que souberam se impor num mundo ordenado segundo a visão patriarcal. Dale Arden, por exemplo, embora personagem adjuvante na série Flash Gordon, de Alex Raymond, luta ao lado do herói em pé de igualdade. Até mesmo seus trajes elegantes decoram o corpo com uma sensualidade não muito diferente da do parceiro.

dalearden

A Segunda Guerra, ao deslocar os homens para os campos de batalha, favoreceu um pouco mais a emancipação da mulher como figura sociocultural, embora essa emancipação tenha-se devido a interesses políticos e econômicos, como se verá. Nesse período, o mercado de trabalho (inclusive o gráfico-editorial) abria as portas, por falta de mão-de-obra, às artistas e roteiristas mulheres – sobretudo nos Estados Unidos, em cujo cenário se destacariam nomes como Tarpé Mills e Trina Robbins.

MissFury

Miss Fury, heroína criada por Tarpé Mills  Legend_of_Wonder_Woman_2

Capa de Wonder Woman, criada por Trina Robins

Nas ilustrações publicitárias e nos quadrinhos, veremos, da mesma forma, surgir uma figura feminina bem diferente daquela que algumas obras da “grande arte” insistiam em objetificar, ainda que agora submersa aos conceitos formais modernistas.

MulherNRockwellIlustração de capa por Norman Rockwell

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Nu feminino do mesmo período, por Pablo Picasso

A Mulher Maravilha, criada pelo casal William e Elisabeth Moulton Marson, corresponde ao mesmo anseio que criou o Capitão América: fomentar, em ambos os sexos, o espírito de luta antinazista, através da metafórica representação do herói superpoderoso (a mulher deificada e o soldado turbinado pela ciência bélica). A mulher-deusa e o homem-tecnológico derivam, sem dúvida, de uma dicotomia presente no nosso imaginário que destina ao feminino às forças místicas, intuitivas ou obscuras (naturais e próprias de seu corpo – vide bruxas, fadas, sereias), enquanto que os poderes gerados pela razão, inteligência, esforço ou desenvolvimento físico são destinados quase que invariavelmente aos homens (guerreiros, cavaleiros, piratas e outros aventureiros).

Eu poderia tecer inúmeras considerações sobre a Mulher Maravilha e sua evolução como personagem até os dias de hoje (incluindo sua figuração gráfica) comparando-a com outras mídias e modalidades de representação da entidade feminina e do corpo-mulher. Contudo, outra personagem dos quadrinhos me interessa e satisfaz mais os objetivos desse estudo improvisado. Ela não é nenhuma heroína, e seria como qualquer uma de nós se não tivesse se apaixonado certa vez por um certo super-homem. Coitada.

No próximo post, um estudo de caso: a triste história de Louis Lane.

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