A Representação das Mulheres na Cultura Visual – parte 10

Terminei o último artigo prometendo falar em Lois Lane. Mas antes, é preciso dizer que, na história da grande arte, principalmente a partir do século XVIII, a representação do corpo feminino se complexifica, assumindo outras conotações para além do dualismo sexo/maternidade, sacro/profano ou vício/virtude. Algumas tipologias de representação do corpo feminino nas artes (sobretudo nas artes decorativas ligadas aos monumentos e mais tardiamente, à publicidade) foram levantadas por Marina Warner, com relação ao sua aplicação alegórica, entre elas: a Virtude, a Vitória, a Justiça, a Sabedoria, a Riqueza, a Liberdade, etc. É importante mencionar isso, porque muitas dessas figuras decorativas serviriam de modelo para compor a personagem heroica feminina nas ilustrações e quadrinhos.

Pois bem: Lois Lane, quando no momento de sua criação, escapava a esses arquétipos, pois era uma garota comum e ainda por cima tinha uma profissão: era jornalista. Sua personalidade era, no todo, sarcástica mas, ao mesmo tempo, afetiva e independente. Tal como Dale Arden, Lois nasceu para confirmar a virilidade de um herói, mas também para conquistar o público feminino para a leitura de quadrinhos.

LouisLane01

Os anos fizeram mal a Lois Lane, infelizmente. Primeiro foi a censura moral que se abateu sobre os quadrinhos, impedindo, entre outras, a realização sexual dos seus personagens; em seguida, a guerra, embora tenha contribuído por um período para fortalecer e dignificar a imagem da mulher nas artes gráficas, acabou gerando um movimento reacionário nos anos 50, do tipo “vamos colocar a mulher de volta ao seu devido lugar”. E a jornalista atraente e ousada, escolhida para namorada de um herói másculo e poderoso como Super-homem, acabou por sofrer as consequências e virou vítima desse papel. Fosse uma super-heroína, seu destino não seria tão cruel. Mas sendo uma garota “igual às outras”, foi reduzida à apêndice amoroso e à função superficial de captar novas leitoras (os “brotos” da sociedade classe-media nascidos do efeito baby-boom) para novas edições em quadrinhos que levavam seu nome, mas que não passavam de romances água-com-açúcar, desvalorizando seu caráter audacioso dos primeiros tempos.

LouisLane02

Nada que é tão ruim que não possa piorar: na década de 1960, com pouca vendagem, a revistinha Lois Lane apelava cada vez mais para a exploração do seu corpo sexualizado (observem e comparem com as edições mais antigas). Uma capa com nuances sadomasoquistas dispensa comentários:

LouisLane03

Por fim, eis o que resta dessa mulher, que tinha tudo pra se tornar interessante, já que representava como poucas uma mulher com poderes reais, embasados no humor ácido, audácia, inteligência e competência, valores que certamente foram a causa do amor de Super-homem/Clark Kent. Atualmente, em tempos de releituras do mundo superheroico, Lois Lane, ainda que tenha recuperado certa energia como jornalista corajosa em algumas publicações, aguarda o resgate dos desenhistas e roteiristas, agachada diante da masculinidade evidente que vigora nos quadrinhos comerciais.

LouisLane05

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s